terça-feira, 31 de julho de 2012

EDUCAÇÃO CRISTÃ CONTINUADA – Aula 06


DESCOBRINDO O NOVO TESTAMENTO

ATOS E ROMANOS


Texto Básico:Atos 2:37-41

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da Terra”(Rm 1:8).


INTRODUÇÃO

Nesta Aula estudaremos sobre o livro de Atos e Romanos. Faremos uma breve análise destes dois livros, seguindo os tópicos propostos pelo comentarista da lição. Em primeiro lugar estudaremos o livro de Atos. Estudar este livro é trazer à memória os gloriosos feitos de Deus; é alimentar nossa alma com a esperança de que o mesmo Deus que realizou coisas exponenciais no passado tem poder para realizar de novo em nossos dias; é nutrir nosso coração com a perspectiva de novos avivamentos, que coloquem a igreja no trilho da verdade e firmem seus passos no caminho da santidade. Em segundo lugar estudaremos a Carta aos Romanos. Esta carta é o maior tratado teológico do Novo Testamento. Nela, o apóstolo Paulo, o maior bandeirantes do cristianismo, alcança as alturas excelsas e contempla desses cumes o plano glorioso da redenção. Portanto, estudar a Carta aos Romanos é como matricular-se na escola superior do Espírito Santo e aprender as verdades mais profundas e mais importantes do cristianismo.

I. ATOS, A IGREJA EM AÇÃO
1. Introdução ao Livro de Atos. Atos dos Apóstolos é a única história inspirada da Igreja; também é a primeira história da Igreja e o único registro histórico original a tratar do inicio da fé. Se não fosse por Atos, não teríamos nenhuma informação acerca da Igreja primitiva e haveria uma enorme lacuna entre a vida de Jesus nos evangelhos e as epístolas.

O Rev. Hernandes Dias Lopes chama este livro de “a dobradiça do Novo Testamento”. O livro de Atos é a segunda parte de uma obra cujo primeiro volume é o Evangelho de Lucas. O Evangelho de Cristo segundo Lucas trata do que Jesus começou a fazer e a ensinar; Em ATOS, o que Jesus continuou a fazer e a ensinar por intermédio dos apóstolos, no poder do Espírito Santo. Lucas reúne a história de Jesus e a história da igreja primitiva. Explica como as boas novas começaram e se espalharam a ponto de abranger o mundo do princípio da igreja, desde Jerusalém até Roma.

Citando William MacDonald, o rev. Hernandes Dias ressalta que o livro de Atos é a única história da igreja inspirada; é também o primeiro livro da história da igreja apostólica. Atos não é apenas uma ponte que liga a vida de Cristo com o Cristo vivo ensinado nas epístolas; é também um elo de transição entre o judaísmo e o cristianismo, entre a lei e a graça.

À guisa de introdução, destacamos três verdades importantes sobre a mensagem de Atos:

a) A importância de sua mensagem. Atos narra a história da igreja apostólica, desde os seus primeiros passos em Jerusalém até Roma, a cidade imperial. Faz uma estreita conexão entre o que Jesus começou a fazer e ensinar e o que ele continuou a fazer e ensinar por intermédio dos apóstolos. O livro de Atos não coloca no centro do palco os apóstolos, mas o Senhor Jesus. É ele quem fala e faz. Os homens de Deus são apenas instrumentos; o agente é o próprio Filho de Deus. O poder que transforma vidas não vem do homem, mas de Deus; não vem da terra, mas do céu; não vem de dentro, mas de cima. Como nos Evangelhos, o tema central de Atos é Cristo, mas agora é o Cristo ressuscitado, vivo, que dá poder, e que desafia seus seguidores a irem por todo o mundo com a incomparável história do amor de Deus.

b) A necessidade de sua mensagem. Atos é um manual sobre o crescimento saudável da igreja. Vivemos num tempo de busca desenfreada pelo crescimento numérico da igreja. No entanto, muitos se perdem nessa corrida. Buscam as fórmulas do pragmatismo em vez de recorrer aos princípios emanados do livro de Atos. Caem nas armadilhas da numerolatria (idolatria dos números) e transigem com a verdade para alcançar resultados. Pregam o que o povo quer ouvir em vez de pregar o que povo precisa ouvir. Pregam para agradar os incrédulos em vez de levá-los ao arrependimento. Pregam prosperidade em vez de graça. Por outro lado, o livro de Atos nos previne contra a numerofobia (medo dos números). Uma igreja saudável cresce naturalmente. Quando a igreja vive a doutrina apostólica, Deus acrescenta a ela, diariamente, os que vão sendo salvos. O livro de Atos é o mais importante manual de crescimento da igreja.

c) A urgência de sua mensagem. O livro de Atos trata do crescimento espiritual e numérico da igreja. Para alcançar esse alvo, a igreja manteve, inseparavelmente, ortodoxia e piedade, doutrina e vida, palavra e poder. Ortodoxia sem piedade gera racionalismo estéril. Piedade sem ortodoxia produz misticismo histérico. Ao longo da história, a igreja várias vezes caiu num extremo ou noutro. Ainda hoje, vemos muitas igrejas zelosas da doutrina, mas áridas como um deserto; outras cheias de entusiasmo, mas vazias de doutrina. Atos é um alerta para a necessidade urgente de um profundo reavivamento. Não precisamos buscar as novidades do mercado da fé, mas nos voltarmos às origens do cristianismo apostólico.

2. Autor de Atos. O autor de Atos dos Apóstolos e do Evangelho nada diz a respeito de si mesmo, nem mesmo em sua dedicatória pessoal a Teófilo. A tradição eclesiástica, porém, desde cedo não tem dúvidas de que o autor é Lucas. Lucas era médico e historiador. A tradição liga-o à cidade de Antioquia da Síria, a terceira maior do mundo naquela época. Único escritor gentio do Novo Testamento, Lucas foi testemunha ocular dos ocorridos nas viagens missionárias de Paulo, uma vez que acompanhou o apóstolo nessas peregrinações como seu companheiro e médico. Sabemos muito pouco acerca de Lucas; só há três citações diretas a ele no Novo Testamento (Cl 4:14; 2Tm 4:11; Fm 24). Essas referências nos permitem afirmar duas coisas a seu respeito: Lucas era médico e cooperador de Paulo, aliás, um de seus amigos mais fiéis, pois estava com ele em sua segunda prisão em Roma.

3. O esboço de Atos. Há vários modelos de esboço deste Livro. Destaco este:

I. A Igreja em Jerusalém (At 1-7).

A promessa da vinda do Espírito Santo (At 1:1-5).

A comissão dos apóstolos (At 1:6-11).

A espera dos discípulos em Jerusalém (At 1:12-26).

O dia de Pentecostes e o nascimento da Igreja (At 2:1-47).

A cura de um coxo e a exortação de Pedro a Israel (At 3:1-26).

A perseguição e o crescimento da Igreja (At 4:1-7:60).

II. A Igreja na Judéia e em Samaria (At 8:1-9:31).

O ministério de Filipe em Samaria (At 8:1-25).

Filipe e o eunuco etíope (At 8:26-40).

A conversão de Saulo de Tarso (At 9:1-31).

III. A Igreja até os confins da Terra (At 9:32-28:31).

A pregação do Evangelho aos gentios (At 9:32-11:18).

A implantação da Igreja em Antioquia (At 11:19-30).

A perseguição por Herodes e a morte do rei (At 12:24-14:28).

A primeira viagem missionária de Paulo: Galácia (At 12:24-14:28).

O concílio de Jerusalém (At 15:1-35).

A segunda viagem missionária de Paulo: Ásia Menor e Grécia (At 15:36-18:22).

A terceira viagem missionária de Paulo: Ásia Menor e Grécia (At 18:23-21:26).

A prisão e os julgamentos de Paulo (At 21:27-26:32).

A viagem de Paulo a Roma e o naufrágio (At 27:1-28:16).

A prisão domiciliar e o testemunho de Paulo aos judeus em Roma (At 28:17-31).

4. Os propósitos do livro de Atos. Lucas, inspirado pelo Espírito de Deus, escreveu o livro de Atos com vários propósitos em mente. Citamos mos alguns deles:

a) Mostrar a legitimidade do cristianismo diante das autoridades romanas. O livro de Atos não é apenas a história do avanço dos cristãos, mas, sobretudo, uma defesa do cristianismo. O propósito de Lucas é defender a fé cristã diante dos seus opositores, mostrando que a religião do “Caminho” é legítima, legal e salutar para o povo. Ao longo do livro, Lucas reúne vários relatos nos quais as autoridades romanas reconhecem que não têm nenhuma acusação formal contra os cristãos.

b) Mostrar a expansão da igreja de Jerusalém a Roma apesar das perseguições. Lucas é enfático em mostrar as variadas formas de perseguição que os apóstolos e toda a igreja sofreram na marcha do cristianismo de Jerusalém a Roma. Perseguições internas e externas, físicas e psicológicas, políticas e religiosas. O próprio apóstolo Paulo afirma: ...através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus (At 14:22). A perseguição começa com a zombaria dirigida aos apóstolos no dia de Pentecostes, e continua com a tentativa do Sinédrio de calar os apóstolos, mandando prendê-los e açoitá-los. Chega rapidamente ao auge na morte de Estêvão, passando também pela morte de Tiago. Paulo foi apedrejado em Listra, açoitado em Filipos, escorraçado da Tessalônica, enxotado de Beréia, chamado de tagarela em Atenas e de impostor em Corinto. Em Éfeso enfrentou feras, foi preso em Jerusalém, acusado em Cesaréia e novamente preso em Roma. Longe, porém, de recuar diante das perseguições, a igreja caminhou com ainda mais ousadia e desassombro para obter resultados alvissareiros.

c) Mostrar o espantoso crescimento da igreja apesar das limitações humanas. A igreja apostólica estava desprovida de recursos financeiros. Os apóstolos não tinham prata nem ouro. E, mais, eram homens iletrados. Não tinham influência política, e a maioria dos membros da novel igreja era composta de escravos. Apesar dessas limitações humanas, a igreja encheu o império romano com a doutrina de Cristo e fincou a bandeira do evangelho no centro da cidade imperial. A mensagem de Atos é vital para a igreja contemporânea porque nos mostra o caminho de Deus para o crescimento da igreja, a despeito de todas as suas limitações. A igreja cresce pela oração e pela Palavra, no poder e na virtude do Espírito Santo, por intermédio de cristãos fiéis e ousados.

d) Mostrar a oração e a Palavra como os dois vetores do crescimento da igreja. Os apóstolos entenderam que não poderiam abandonar a oração e o ministério da Palavra para servirem às mesas. A oração e a Palavra foram os grandes vetores do crescimento da igreja. Ainda hoje esses dois instrumentos são os principais fatores do crescimento saudável da igreja. Deus não unge métodos; unge homens e mulheres de oração. Sem oração não há pregação de poder. Não podemos separar pregação de oração. Só podemos levantar-nos diante dos homens se primeiro nos prostrarmos diante de Deus.

e) Mostrar a obra do Espírito Santo na expansão da igreja. A igreja apostólica avançou de Jerusalém a Roma no poder do Espírito Santo. Foi o Espírito quem capacitou a igreja para viver e pregar. Foi o Espírito Santo quem liderou a igreja em seu extraordinário crescimento espiritual e numérico. A ação do Espírito Santo é tão marcante em Atos que este livro tem sido descrito às vezes como o livro dos "Atos do Espírito Santo”.

f) Mostrar o triunfo do reino de Deus sobre o reino das trevas. A igreja apostólica cresceu espantosamente e desbastou as trevas do paganismo. A igreja triunfou sobre o legalismo fariseu e o liberalismo saduceu em Jerusalém. Triunfou, outrossim, sobre o sincretismo samaritano. Triunfou, de igual forma, sobre o paganismo e a idolatria nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor. Triunfou, finalmente, sobre o culto ao imperador. A igreja apostólica cresceu a despeito das mais variadas e perversas perseguições. O sangue dos mártires tornou-se a sementeira do evangelho.

II. ROMANOS, A JUSTIÇA DE DEUS
1. Introdução à Epístola. Alguém disse que Romanos é “a Catedral da Fé”. Não é sem motivo que Romanos sempre encabeçou as cartas de Paulo. Uma vez que Atos termina com a chegada de Paulo a Roma, é lógico a seção de epístolas do Novo Testamento iniciar-se com a Carta do apóstolo Paulo à igreja romana, uma Carta escrita antes de ele visitar os cristãos daquela cidade. Acima de tudo, porém, em termos teológicos, Romanos é o livro mais importante do Novo Testamento, pois constitui o texto bíblico mais próximo de uma apresentação sistemática da fé cristã.

Em termos históricos, Romanos é o livro mais influente da Bíblia. Esta epístola, provavelmente mais que qualquer outro livro da Bíblia, tem influenciado a história do mundo de formas dramáticas. Vejamos alguns fatos contados pelos historiadores da igreja:

- Foi por intermédio da sua leitura que Aurélio Agostinho (354-430), o grande líder religioso e intelectual da África do Norte, professor de retórica em Milão, o maior expoente da igreja ocidental no período dos pais da igreja, foi convertido a Cristo em 386 d.C. Agostinho viveu de forma devassa, entregue às paixões carnais, prisioneiro do sexo ilícito e ao mesmo tempo objeto das orações de Mônica, sua mãe, até que se assentou a chorar no jardim de seu amigo Alípio, quase persuadido a começar vida nova, mas sem chegar à resolução final de romper com a vida que levava. Ali sentado, ouviu uma criança cantar numa casa vizinha: Tolle, legel Tolle, legel (Pega e lê! Pega e lê). Ao tomar o manuscrito do amigo que estava ao lado, seus olhos caíram nestas palavras: "Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências" (Rm 13:13,14 ). Seus olhos foram imediatamente abertos, seu coração foi transformado e as sombras de suas dúvidas, dissipadas. O próprio Agostinho confessa: "Não li mais nada e não precisava de coisa alguma. Instantaneamente, ao terminar a sentença, uma clara luz inundou meu coração e todas as trevas da dúvida se desvaneceram". Agostinho tornou-se o maior teólogo da igreja ocidental.

- O monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) rompeu os grilhões da escravidão espiritual diante de Romanos 1:17 e descobriu que o justo vive pela fé. Até então, Lutero vivia atormentado pela culpa. A justiça de Deus o esmagava e o levava ao desespero. O monge afligia sua alma com intermináveis confissões ao vigário, no confessionário, flagelando seu corpo com castigos e penitências. Lutero recorreu a todos os recursos do catolicismo de sua época na tentativa de amenizar a angústia de um espírito alienado de Deus, diz Stott (STOTT, John. Romanos, p. 15).

- João Wesley recebeu a certeza da salvação ao ouvir numa igreja moravia a leitura do prefácio do comentário de Romanos escrito por Lutero. João Wesley tornou--se um líder espiritual de grande expressão na Inglaterra. Criou depois a igreja metodista, uma igreja que buscava a santidade sem deixar de engajar-se firmemente na obra missionária. O reavivamento inglês salvou a Inglaterra dos horrores da Revolução Francesa. Esse movimento espiritual espalhou-se para a Nova Inglaterra e atingiu horizontes ainda mais largos.

2. Autor e importância. Há abundantes evidências internas e externas acerca da autoria paulina de Romanos. Paulo se apresenta como o remetente da carta. Ele o faz com senso de humildade, chamando a si mesmo de servo de Cristo e, também, com senso de autoridade, afirmando seu apostolado (Rm 1:1). Pais da igreja como Eusébio, Irineu, Orígenes, Tertuliano e Clemente dão pleno testemunho da autoria paulina de Romanos.

Quanto a sua importância, é o maior compêndio de teologia do Novo Testamento. É a epístola das epístolas, a mais importante e proeminente carta de Paulo. É uma exposição e uma defesa do evangelho da graça. John Stott considera Romanos uma espécie de manifesto cristão. Nenhum livro da Bíblia exerceu tanta influência sobre a teologia protestante e nenhuma carta de Paulo revela de forma tão clara o pensamento teológico do apóstolo aos gentios.

3. Local de onde foi escrita e a Portadora da Carta.. Há um consenso geral de que Paulo escreveu Romanos durante sua estada de três meses na Grécia (At 20:2,3), na província da Acaia, numa região próxima de Corinto. Isso é confirmado pela recomendação de Paulo a Febe, a portadora da Carta à igreja de Roma. Febe era da igreja de Cencreia (Rm 16:1), uma pequena cidade a 12 quilômetros de Corinto, onde se situava um importante porto da capital da Acaia. Paulo estava encerrando sua terceira viagem missionária e se preparava para viajar a Jerusalém a fim de levar as ofertas levantadas entre as igrejas gentias que socorreriam os pobres da Judéia (Rm 15:30,31).

É bastante provável que esta Carta tenha sido escrita por volta do ano 57 ou 58 d.C. É, portanto, a última Carta escrita por Paulo antes de seu prolongado período de detenção, primeiro em Cesaréia (At 23:31-26:32) e depois em Roma (At 28:16-31). Nesse tempo, o veterano apóstolo já havia concluído suas três viagens missionárias.

4. Quem fundou a igreja de Roma? Paulo escreveu a Carta à igreja de Roma, que era composta por judeus e também por gentios. A Carta é dirigida tanto a uns como aos outros. Dirigindo-se a seus irmãos judeus, Paulo demonstra sua preocupação com eles e explica como podem ajustar-se ao plano divino (cf Rm 9:1-11:2). Visto que o caminho para que judeus e gentios pudessem estar unidos no corpo de Cristo foi aberto pelo próprio Deus, os dois grupos poderão louvá-lo por sua sabedoria e amor (cf Rm 11:13-36).

Mas, quem fundou a igreja de Roma? Com toda convicção podemos afirmar que Paulo não foi o fundador da igreja, uma vez que ele escreve falando acerca de seu desejo de visitar aqueles irmãos (Rm 1:10-13). Tampouco a igreja de Roma foi fundada por algum dos outros apóstolos. O catolicismo romano ensina que o apóstolo Pedro foi o fundador da igreja, e seu episcopado na igreja durou 25 anos, ou seja, de 42-67 d.C. Essa tese, porém, carece de fundamentação. Primeiro, porque Pedro era o apóstolo da circuncisão (Gl 2:9), e não o apóstolo destinado aos gentios, ou seja, o seu ministério era destinado prioritariamente aos judeus. Segundo, porque Paulo não menciona Pedro em sua carta aos Romanos, o que seria uma gritante falta de cortesia. Terceiro, porque Paulo diz que gostaria de ir a Roma para compartilhar o evangelho e distribuir algum dom espiritual (Rm 1:11), o que não faria sentido se Pedro já estivesse entre eles. Além disso, Paulo tinha o princípio de pregar o evangelho não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio (Rm 15:20).

Há duas possibilidades para a origem da igreja de Roma. A primeira é que essa igreja foi estabelecida pelos judeus ou prosélitos de Roma, convertidos na Festa do Pentecostes em Jerusalém no ano 30 d.C., os quais retornaram à capital do império para plantar a igreja (At 2:10). Em Roma estava o maior centro judaico do mundo antigo. Havia mais de treze comunidades sinagogais na cidade. Mantinham um contato intenso com Jerusalém. As pessoas viajavam para lá e para cá como comerciantes, artesãos e também como peregrinos devotos. Confessando sua fé, deram origem a um movimento cristão muito vivo. Desse modo, o cristianismo em Roma originou-se da atuação de crentes para nós anônimos. As famosas estradas romanas facilitaram sobremodo a mobilização das pessoas e a rápida expansão do evangelho. A via Ápia, a via Cornélia, a via Aurélia e a via Valéria eram algumas das estradas que cruzavam o império.

A segunda possibilidade é que essa igreja tenha sido estabelecida por cristãos desconhecidos, convertidos pelo ministério de Paulo, emissários de algum dos centros gentílicos que haviam compreendido plenamente o caráter universal do evangelho. Vale ressaltar que as três grandes cidades onde Paulo estivera por mais tempo - Antioquia, Corinto e Éfeso - eram justamente as três com as quais (assim como Alexandria) o intercâmbio com Roma se mostrava mais intenso.

5. Motivos, Tema e Características da Carta aos Romanos.

5.1) Motivos da Carta. Diferentemente das outras cartas, Paulo não escreveu aos romanos para resolver problemas locais e circunstanciais. Por isso, essa carta parece mais um tratado teológico que uma missiva pastoral. Paulo tem pelo menos cinco propósitos em seu coração ao escrever esta carta:

a) Pedir oração da igreja em seu favor. Paulo estava prestes a realizar uma viagem extremamente perigosa a Jerusalém (Rm 15:30,31). Mesmo com o coração cheio de amor e as mãos transbordando de ofertas para os pobres da Judéia, ele conhecia os perigos da viagem. Ele temia duas coisas: que os judeus o matassem; que os "santos" de Jerusalém nem mesmo se dispusessem a receber o generoso donativo vindo dos crentes gentios. Seus pressentimentos não eram sem fundamento (At 20:3). Ao despedir-se dos presbíteros de Éfeso, o apóstolo os alerta sobre essa dolorosa possibilidade (At 20:22,23). Chegando a Cesareia, ele foi alertado a não subir a Jerusalém, pois lá o esperavam cadeias e tribulações (At 21:8-14). Na cidade, Paulo foi recebido com alegria pelos irmãos (At 21:17), mas com sórdida crueldade pelos judeus, que entraram em conspiração para matá-lo (At 21:27-31). Pressentindo esse desfecho, Paulo escreveu aos crentes de Roma pedindo oração em seu favor (Rm 15:30,31).

b) Demonstrar seu desejo de visitar a igreja de Roma. Paulo desejou visitar a igreja de Roma algumas vezes, mas isso lhe foi impedido (Rm 1:13). Portas abertas e portas fechadas, porém, são a mesma coisa, se abertas ou fechadas por Deus. Porque não pôde ir a Roma, Paulo escreveu esta carta, o maior tratado teológico do Novo Testamento. A impossibilidade de Paulo viajar a Roma privou aqueles crentes por um tempo da presença do apóstolo, mas abençoou todas as igrejas ao longo dos tempos, por meio dessa carta inspirada.

c) Demonstrar seu desejo de compartilhar com os crentes de Roma algum dom espiritual. O interesse de Paulo em ir a Roma era compartilhar com os crentes de Roma o evangelho. Mesmo não tendo sido o fundador da igreja, aquela igreja estava sob sua jurisdição espiritual, uma vez que era o apóstolo enviado por Jesus aos gentios.

d) Ser enviado pela igreja de Roma a Espanha. Paulo queria uma base missionária para os seus novos projetos. Depois de concluir seu trabalho missionário nas quatro províncias da Galácia, Macedónia (nordeste da Grécia), Acaia (sudeste da Grécia) e Ásia Menor, Paulo tinha planos de ampliar os horizontes e chegar à Espanha (Rm 15:24,28), a mais antiga colônia romana no Ocidente e o principal baluarte da civilização romana naquelas partes. Para isso, precisava de suporte financeiro e apoio espiritual (Rm 15:24). Essas coisas ele buscava na igreja de Roma.

e) Fazer uma exposição detalhada do evangelho. Paulo escreve Romanos para repartir com a igreja da capital do império o significado do evangelho. Nessa carta ele discorre sobre a condição de ruína e perdição tanto dos gentios como dos judeus. Também mostra que a salvação é pela graça, independentemente das obras, tanto para os gentios como para os judeus.

5.2) Tema e Características da Carta. O Tema da Carta aos Romanos é: A justiça de Deus para judeus e gentios. O versículo chave do Tema é: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego”(Rm 1:16,17). A justiça de Deus manifesta-se no Evangelho. Na cruz de Cristo Deus revelou sua ira sobre o pecado e seu amor ao pecador. A cruz de Cristo foi a justificação de Deus, uma vez que nela Deus satisfez plenamente sua justiça violada. Se a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens, no Evangelho a Justiça de Deus se revela para a salvação de todo o que crê.

A palavra “Evangelho”, aqui, significa Boas-Novas. Nos versículos 1-17, do Capítulo1, o apóstolo apresenta seis fatos importantes acerca da Boas-Novas:

a) São provenientes de Deus (v.1).

b) Foram prometidas pelas Escrituras proféticas do Antigo Testamento (v.2).

c) Dizem respeito ao Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus (v.3).

d) São o poder de Deus para a Salvação (v.16).

e) São para todos os homens, tanto judeus quanto gentios (v.16).

f) Revelam a justiça de Deus, que é somente pela fé (v.17).

O apóstolo Paulo acompanhou essa temática por toda a sua epístola, esclarecendo sobre a justiça divina, passo a passo.

Características Particulares. A Carta aos Romanos foi apresentada como um tratado teológico organizado e bem fundamentado da fé de Paulo; não tem o formato típico de uma epístola, exceto pela forma como o apóstolo se despediu, saudando vários irmãos romanos.

Todos os reformadores viam Romanos como sendo a chave divina para o entendimento de todas as Escrituras, já que aqui Paulo une todos os grandes temas da Bíblia: pecado, lei, julgamento, destino humano, fé, obras, graça, justificação, eleição, o plano da salvação, a obra de Cristo e do Espírito Santo, a esperança cristã, a natureza e vida da igreja, o lugar do judeu e do não-judeu nos propósitos de Deus, a filosofia da igreja e a história do mundo, o significado e a mensagem do Antigo Testamento, os deveres da cidadania cristã e os princípios da retidão e moralidade pessoal. Romanos nos abre uma perspectiva através da qual a paisagem completa da Bíblia pode ser vista e a revelação de como as partes se encaixam no todo se torna clara.

6. Esboço de Romanos. Apresentamos a mais adequada com o Tema:

I. O Homem precisa desesperadamente da Justiça de Deus (Rm 1:18-3:20).

II. A gloriosa provisão divina da Justiça (Rm 3:21-5:21).

III. A concretização da Justiça pela Fé (Rm 6:1-8--:39).

IV. Justiça pela Fé relacionada com Israel (Rm 9:1-11:36).

V. Aplicações práticas da Justiça pela Fé (Rm 12:1-15:13).

VI. Conclusão – Os planos de Paulo e as saudações finais (Rm 15:14-16:27).

 CONCLUSÃO

Romanos é a maior, mais rica e mais abrangente declaração da parte de Paulo sobre o Evangelho. Suas declarações condensadas sobre verdades imensas são como molas retraídas – quando são liberadas, elas voam pela mente e pelo coração até encherem o horizonte do indivíduo e moldarem a sua vida. O estudo de Romanos é vitalmente necessário para a saúde e entendimento espiritual do cristão.


Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

O Novo Dicionário da Bíblia – J.D.DOUGLAS.

Panorama do Novo Testamento – ICI, São Paulo, 2008).

William Macdonald – Comentário Bíblico popular (Novo Testamento).

Comentário Bíblico NVI – EDITORA VIDA.

Guia do Leitor da Bíblia – Lawrence O. Richards

ATOS (A ação do Espírito Santo na vida da Igreja) – Hernandes Dias Lopes.

ROMANOS (O evangelho segundo Paulo) – Hernandes Dias Lopes.

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