domingo, 27 de maio de 2012

Apostasia e o Ministério Ordenado


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Por John Owen


A pureza ou apostasia de uma igreja depende muitíssimo de seus pastores, líderes, professores e pregadores, assim como a igreja do Antigo Testamento dependia, para sua pureza, da fidelidade de seus sacerdotes (Ml 2.1-9).


O pastorado santo, humilde, trabalhador que Cristo instituiu na igreja foi usado grandemente para converter pessoas à obediência bíblica e para conservá-las nela. Deus abençoou e fez prosperar a doutrina, o espírito, o exemplo, a vidas, as orações, a pregação e o trabalho duro delas. A vida desses cristãos reforçou e provou o poder e a verdade do evangelho que pregaram.


Mas por meio da degeneração das épocas que se sucederam, as correntes da religião cristã foram poluídas por mestres corruptos que foram exemplos de dissensão, divisões, ambições e pensamentos mundanos.


Sob o Antigo Testamento, os sacerdotes levaram o povo a dois tipos diferentes de apostasia:


Primeiro, levaram o povo à superstição e idolatria (Jr 23.9-15). Esta apostasia terminou no cativeiro babilônico, onde todos seus ídolos foram enterrados na terra de Sinear (Zc 5.11).


Segundo, depois da volta deles do cativeiro, os sacerdotes, por negligência, ignorância e mau exemplo, lideraram o povo no desprezo de Deus e das coisas sagradas. Isso começou nos dias do profeta Malaquias, o último dos profetas bíblicos, e terminou na rejeição de Cristo e na destruição daquele templo e nação. Quando Cristo foi rejeitado pelo povo, foram os líderes religiosos quem os forçaram a clamar: “Crucifiquem-no!”.


Semelhantemente, a primeira apostasia na igreja cristã foi através da superstição e idolatria, que chegou ao auge na Igreja de Roma. Esta superstição e idolatria se fez acompanhar, inevitavelmente, de cada vez maior vileza na vida de todo tipo de pessoas.


Salvas de superstição e idolatria, muitas igrejas, caíram em comportamento mundano, sensual e profano, porque o clero nestas igrejas era mundano, sensual e profano.


Como é importante, pois, o ministério ordenado, para guardar pura a igreja e evitar que caia na apostasia!


A pureza e bem-estar de uma igreja depende da pureza e fidelidade de seus ministros (Ef 4.11-15).


A igreja prospera ou decai conforme seus ministros designados prosperam ou decaem. Se estes são negligentes e corruptos, as pessoas abandonarão o evangelho. Os rebanhos não serão preservados onde os pastores são negligentes. Se os campos não forem continuamente cuidados, serão tomados pelo mato, espinhos, por espinhos e ervas daninhas.

Obrigações importantes do ministério


É dever dos pastores ordenados conservar pura a doutrina do evangelho, especialmente no que diz respeito à santidade. “Os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento” (Ml 2.7; Ef 4.11-15). Foi esta a principal incumbência que Paulo deu aos presbíteros em Éfeso (At 20.28-30). Paulo também encarregou Timóteo de conservar puro o evangelho (1 Tm 6.13, 14, 20; 2 Tm 2.14, 15). E essa doutrina do evangelho deve ser entregue a homens fiéis que possam instruir outros também (2 Tm 2.1, 2).


A Bíblia, as mentes e corações dos crentes, e o ministério escolhido e ordenado são os três repositórios de verdade sagrada.


A Bíblia é mantida a salvo pela providência de Deus contra todas as oposições do inferno e do mundo.


A verdade sagrada nas mentes e corações dos crentes é guardada pelo Espírito de Cristo e sua graça (Jo 14.16, 17, 26; 16.13; 1 Jo 2.20, 21; Jo 6.45; Hb 8.10, 11). Compete ao Espírito Santo preservar a verdade nos corações e mentes dos crentes, mesmo em tempos de apostasia romana, como fez nos dias da apostasia israelita, quando Elias parecia representar sozinho a verdadeira religião.Naquela época Deus tinha preservado sete mil que não dobraram o joelho a Baal (1 Re 19.18).


Toda a pregação e ensino da verdade sagrada foi confiada ao ministério ordenado. A imaginação da Igreja de Roma, de que a verdade sagrada fica guardada nas celas ocultas da tradição ou em fantásticas e invisíveis casas do tesouro que não exigem nem cuidado, nem sabedoria, nem honestidade para guardá-la pura, mas chaves falsas para abri-la, foi uma maneira pela qual a verdade e santidade foram banidas do mundo.


A verdade do evangelho bíblico é a única raiz da qual cresce a santidade bíblica. Se a raiz se corrompe, o fruto também será corrupto. É impossível manter o poder da piedade onde a doutrina da qual procede é desconhecida, corrompida ou desprezada. Por outro lado, onde os homens estão cansados de santidade, não continuarão fiéis à verdade divina por muito tempo. A grande oposição feita a todas as doutrinas da Bíblia hoje existe justamente porque os homens detestam a santidade.


É dever dos pastores ensinar o desígnio todo de Deus como fez Paulo (At 20.27). Quaisquer deles que não são dotados de sabedoria para ver o que é útil, proveitoso, e o que os ouvintes estão prontos para ouvir, conforme a necessidade atual de seu estado espiritual, não sabem o que é ser ministros fiéis de Cristo.


Eles precisam pregar todo o desígnio de Deus com cuidado, diligência e fidelidade (2 Tm 4.1, 2). Como deveriam estas palavras dirigidas a Timóteo soar alto aos ouvidos de todos os pastores que desejam desempenhar seu dever com fidelidade! Será que as almas dos homens serão preservadas, edificadas e salvas com menos esforço do que nos dias dos apóstolos?


Eles precisam pregar todo o desígnio de Deus com todas suas forças (At 6.4; 1 Tm 5.17; 1 Co 16.16; 1 Ts 5.12).


Precisam pregar todo o desígnio de Deus com oração constante (At 6.4). O ministério da Palavra que não for sustentado por oração para ser bem sucedido dificilmente exercerá santidade na vida de outras pessoas. Paulo é o supremo exemplo de um homem de oração (Rm 1.9, 10). É inútil tomar sobre si toda a armadura de Deus e não apoiá-la com oração (Ef 6.18, 19). Um pastor que prega a Palavra de Deus sem oração constante para que a pregação tenha êxito é bem capaz de estar ocultando um ateísmo secreto em seu coração, e dificilmente vai operar santidade na vida dos outros.


É dever dos ministros designados representar, através de sua vida e de seu ministério, o poder e a verdade das grandes e santas doutrinas que pregam.


É dever dos ministros designados evidenciar em suas vidas a mansidão, a humildade e o zelo por Deus. Devem mostrar moderação, negação de si e prontidão para a cruz. Acima de tudo são chamados para mortificar, pelo Espírito, os desejos corruptos que tenham. Desprezo pelo mundo, bondade e paciência para com todas as pessoas, a mente posta no celestial, tudo isso deve ser característico de um ministro de Cristo e do evangelho.


Quaisquer vícios e corrupções que os homens virem nas vidas de seus pastores não serão atribuídos à depravação de sua velha natureza que ainda neles habita, mas sim ao evangelho. Por isso, em todas as coisas os ministros precisam mostrar-se padrão de boas obras (Tt 2.7). Precisam ser exemplos para todos os que os seguem (2 Ts 3.9; 1 Tm 4.12). Esta é a honra à qual Cristo chama seus ministros.


É dever dos ministros ordenados atender diligentemente àquela regra e disciplina santa que o Senhor Jesus Cristo ordenou para a edificação da igreja e a preservação de sua pureza, santidade e obediência.


Muitos pastores são lamentavelmente ignorantes dos desígnios de Deus. Eles não têm sido fiéis em conservar puros e incorruptos a verdade, a doutrina e os mistérios do evangelho. Faltam-lhes desejo e destreza para pesquisar os mistérios da doutrina de Cristo quanto à capacidade para fazer isso. Desprezam o trabalho difícil de expor fielmente as Escrituras. E assim multidões perecem por falta de conhecimento. Estes deverão - e irão - morrer em seus pecados, mas o sangue delas será exigido da mão de tais ministros infiéis (Ez 3.16-21).


A maioria dos sacerdotes no papado é brutalmente ignorantes. Mas para eles isso não importa, porque seu trabalho é manter o povo ignorante das doutrinas da Escritura. E não é melhor a situação na Igreja Grega Ortodoxa. Como resultado, nações inteiras que se chamam de cristãs, por tola ignorância têm degenerado até ao desrespeito e desdém pelas coisas santas; e têm tolerado imoralidades abomináveis que são piores do que quaisquer as que são toleradas pelos pagãos.


Se a pregação do evangelho é o único meio soberano e eficaz designado por Deus para a regeneração e renovação da natureza dos homens e a reforma de suas vidas (e negar isso seria negar o próprio cristianismo), é vão esperar que essa regeneração e reforma se efetuem de forma tal que restaurem a beleza e glória da religião no mundo, sem que primeiro sejam providenciados ministros hábeis para instruir o povo.


Mas por intermédio de um clero infiel e corrupto, tal como o que se pode achar na Igreja de Roma, a verdade foi aviltada, corrompida e pervertida. Nem em nossos dias existe nela uma única doutrina que promova a obediência bíblica que esteja livre de ser desprezada ou corrompida.


Para que a verdade seja conservada pura, é preciso que orações subam a Deus. Só por sua graça o ministério estará capacitado a guardar a Palavra de Deus livre de corrupção.


Muitos pastores são indolentes, frios e indiferentes para com seu trabalho. Poucos se dedicam de coração, de modo diligente e laborioso, ao máximo de suas forças e capacidade, no trabalho do ministério, com zelo pela glória de Deus e com compaixão sincera pelas almas dos homens.


Será que alguém imagina que os deveres diários do sacerdócio da Igreja de Roma - tais como pronunciar os ofícios nas horas canônicas, ouvir confissões e dar absolvições, sem o menor de labor na Palavra e doutrina - seriam os meios que Deus nos tem dado em sua Palavra para se manter o poder e a beleza do cristianismo? O que essas práticas romanas fazem é efetivamente manter a humanidade em pecado e segurança, e os homens gostam que seja exatamente assim.


Muitos clérigos são abertamente ambiciosos, insaciavelmente cobiçosos, presunçosos, sensuais, detestando os bons e prezando como companheiros os mais aviltados, mostrando hábitos depravados de mente.


Que terrível o contraste entre tais homens e os apóstolos e primeiros pregadores do evangelho!


Que Deus possa enviar novamente “pastores segundo seu coração para apascentar o povo com conhecimento e com inteligência” (Jr 3.15).


Só o avivamento de um poderoso e bíblico ministério fará com que a igreja retorne de sua apostasia atual para aquele glorioso estado que vai realmente trazer glória a Deus no mundo. 
- Sobre o autor: Para ler a biografia completa deste grande pregador Puritano, clique aqui!
Extraído do livro: Apostasia do Evangelho, John Owen, Editora Os Puritanos pp.147-152.




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