terça-feira, 27 de março de 2012

A árvore com muitos ramos

A árvore com muitos ramos:
Das primeiras décadas que caracterizaram o movimento cristão será preciso falar em outro momento, visto que representam ao mesmo tempo a culminação e a exceção nesta história. Bastará que se diga que Jesus e seus primeiros seguidores de modo algum rejeitaram a ênfase judaica na verdade como diálogo e narrativa; pode-se até mesmo dizer que levaram-na às últimas consequências.

A seu modo, o que postula a mensagem cristã original é a encarnação do diálogo de Deus e sobre Deus. Ela exige uma efetivação na vida real de verdades universais sobre as quais não basta discutir. É isso, quase literalmente, o que está dito em E o logos se fez carne.

No reino de Deus como apresentado por Jesus não há dogma e portanto não há controle; não há hierarquia e portanto não há notáveis. O diálogo, a igualdade e a concórdia entre os homens representam a verdade concretizada de Deus – o efetivo reinado de Deus entre nós.

Esse ensino, em sua singeleza, representava (como ainda representa) tremendos desafios para a sociedade e para a cultura. Não é de se admirar que sua singularidade tenha sido abafada; não é de se admirar que a independência universal que Jesus exigia (“por que vocês não decidem por si mesmos o que é certo?”) tenha sido reduzida a uma exigência de obediência universal (“creio na santa igreja católica”).

Quando recebeu a sanção imperial de Constantino, meros trezentos anos depois de Jesus, a igreja não apenas deixou para trás sua vocação à marginalidade e abraçou o poder absoluto. No mesmo gesto a igreja também abandonou oficialmente a solução judaica do diálogo e adotou, talvez para sempre, a crença na supremacia do dogma – uma verdade conceitual, inapelável, ditada pelas autoridades e crida sem questionamento pelo rebanho.

Não deve surpreender, portanto, saber que o próprio imperador se envolveu na organização do primeiro concílio da cristandade, convocado em grande parte para resolver a controvérsia sobre o ensino de Ário. Agora que a cristandade se tornava indistinguível do Império, Constantino entendeu que era preciso impor sobre a igreja alguma unanimidade – isto é, era necessário eliminar a discordância e estabelecer um ensino endossado pela autoridade: uma ortodoxia1. Naquele concílio a igreja estabeleceu como desautorizada a crença de grande parte dos cristãos daquela época, e ergueu dogmas e sanções que visassem proteger a verdadeira fé a partir daquele momento – manobra que se repetiria em inúmeras deliberações semelhantes ao longo dos séculos.

Algumas décadas mais tarde, no ano 385, tombou decapitado Prisciliano de Ávila, o primeiro herege da história a ser assassinado por mãos cristãs. A igreja deixava assim absolutamente claro que o método cristão de encontrar a verdade não passava pelo diálogo, pela livre discussão e pela abertura ao questionamento.

Essa aversão radical à discordância perpetuou-se na igreja por mil anos depois de Prisciliano. O maior monumento dessa intolerância são os movimentos da Inquisição, mas há outros: as leis canônicas, o index de livros proibidos, os credos, as cruzadas, o dogma da infalibilidade papal, a conversão na ponta da espada, a perseguição dos judeus.

Os judeus, com seu amor ao diálogo, nunca chegaram a dominar o mundo, mas os cristãos sim; a crença cristã na verdade como dogma praticamente moldou a civilização ocidental. Esse modo de ver o mundo, demonizando a opinião diferente em vez de incentivá-la, mostrou-se especialmente útil como ferramenta de controle e de legitimação de poder. Não é à toa que as Inquisições foram em grande parte financiadas (e, em alguns casos, idealizadas) por monarcas cristãos. Onde não se permite a voz da discordância, o rei assume o papel de Deus, e a igreja é seu profeta. Quem não se dobra ao ensino da igreja é inimigo do estado de coisas, e portanto uma ameaça ao estado. Que ardam as fogueiras; pague-se o preço da concórdia formal com as cinzas de bodes expiatórios.

Essa descrição dos mil anos de supremacia da igreja católica, no entanto, revela apenas parte da verdade. Porque, a despeito da perseguição violenta mas intermitente aos discordantes, o catolicismo desse período (e de fato até os nossos dias) soube abrigar dentro de si um diálogo incessante, a respeito do qual regra geral nós do lado de fora ouvimos muito pouco. Por trás da aparência de inflexibilidade de pedra, por trás de muralhas incontornáveis como a infalibilidade do papa, a igreja católica acolheu e acolhe em seu seio diferentes vozes e movimentos. Debaixo da unidade formal do dogma refugiou-se desde sempre uma fervilhante diversidade.

É história rica demais para ser resumida num só parágrafo, mas está escrita de modo muito definido em carne e letras, em memórias e heranças. Não bastará equilibrar a história do catolicismo na tensão entre liberais e conservadores, entre pragmáticos e idealistas, santos e vendidos, fanáticos e testemunhas. Trata-se de árvore com muitos ramos, e abriga a claridade de místicos como Teresa de Ávila e João da Cruz, a subversão descalça de Francisco de Assis, a crítica gentilíssima e implacável de Erasmo de Roterdã, as lúcidas sublevações dos teólogos da libertação, os êxtases dos movimentos carismáticos, as formatações de Tomás de Aquino, a impertinência generosa de Hans Küng, as adiadas ousadias do Concílio Vaticano II, os pios furores de Dante Alighieri, o despejo de João XXIII, a cautela importuna de Benedito XVI.

Essa parece ter sido desde sempre a bela e terrível vocação da igreja católica: encontrar alguma unidade entre vozes que discordam sobre a validade, a aplicação e até mesmo a natureza do dogma. Essa precária unidade, no fio entre a mais horrenda intolerância e a mais sagrada concórdia, permanece sendo sua vergonha pública e sua grande glória: católica e universal, mas nunca unânime.

Fique muito claro então que, a despeito de ter abandonado formalmente a crença na verdade como diálogo, a igreja católica – a implacável, a intolerante, a dogmática – soube a seu modo manter acesa a chama da diversidade e, portanto, da lucidez. Haverá os que dirão que essa obsessão com a construção de uma unidade artificial a partir de blocos incompatíveis tem motivação meramente política. A aparência de unidade, a fachada de concórdia, vende mais e produz resultados mais favoráveis à manutenção do sistema. Mas haverá os que lembrarão que o Novo Testamento postula uma radical tolerância entre discordantes, e que Jesus estabeleceu como credenciais de sua herança o amor e a fraternidade, não a unanimidade.

De qualquer modo, o empreendimento que é a igreja formal foi visto como uma coisa só – uma entidade vasta, ambivalente e por definição indivisível – durante mais de mil anos.

Mas na marca do século XVI entraram em cena os reformadores, e nada voltaria a ser como era.

Juliano Fabricio via
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