quarta-feira, 28 de março de 2012

O mesquinho que nos habita

O mesquinho que nos habita:

por Zé Luís

Um estalo, e o mundo desmorona como se nunca tivesse sido um lugar seguro, quando a maldita sola do sapato finalmente pisa em falso, e nos deixa estatelado, diante da multidão de outros anônimos que nem se esforçam para abafar a sonora gargalhada.

Sempre cremos que isso ocorre apenas com pessoas descuidadas, insensatas, tolas, cheias de confiante arrogância, e não estamos de todo errado, mas deixamos um ponto impostante de fora: hora ou outra estamos incluídos nesse seleto grupo, por mais que insistamos em dizer o contrário.

Por sermos versados na difícil arte de ser discípulo amado de Deus, cremos piamente que isso é devido ao nosso grande e misterioso mérito (tão misterioso que nós mesmos, se olhássemos com honestidade para nós mesmos, não teríamos a menor ideia do que seria).

Dignos por sermos escolhidos parece uma resposta óbvia, por mais que Deus insista em escolher coisas improváveis para convencer as prováveis, por mais que o Mestre busque nas vielas gente que nada tem a oferecer, não demora muito, por ser humano, que esse escolhido se ache o melhor em alguma coisa que lhe faça merecedor da escolha.

Pedro, amigo de batalhas e caminhadas, estava lá para o que necessário fosse, e até arriscou uns conselhos anti-depressão para o Mestre, quando esse falava em se deixar assassinar: nem percebia que ali o diabo – disfarçado de ideia piedosa – usava sua boca.

Tudo ia muito bem até que o dia do Caos chegou e imperou por completo: quem pensavam ser Deus encarnado foi preso, apanhou, escarrado e humilhado foi. Aquele que era o assunto do momento, o candidato mais provável a Messias, caia vergonhosamente diante dos fariseus. Os discípulos fugiram com o rabo entre as pernas, como caes magros que fogem diante de um “passa fora” qualquer.

Mas Pedro? Pedro não! Ele jurou que morreria junto, ela amava o Mestre o suficiente para cumprir sua promessa. Pelo menos era que toda a sua alma gritava. Só havia um que garantiu que isso não aconteceria, e por azar, esse era o único que não se teve noticia de errar em um só prognóstico.

Mas Pedro não tinha tanta certeza assim das atuais profecias do Cristo... Jesus andava muito "deprê" e isso podia estar influenciando sua razão.

Foi então que viu o chão sumir ao som do galo cantando: onde estava o homem impetuoso, que chegou a falar palavrões ao ser chamado de seguidor daquele que jurará amar até o fim?

Os olhares se cruzaram, Pedro e Jesus, e sem uma palavra, Pedro foi exposto a si mesmo, e amargamente chorou diante de sua incapacidade de cumprir a coragem que prometera. O herói prometido não existia na hora da crise, apenas um homem que daria tudo pela sua vida, inclusive negar a própria vida.

Ver o mesquinho que nos habita injustificadamente é sempre uma surpresa desagradável: e não entender como fomos parar dentro das águas geladas, mas nos lembrarmos vagamente o trincar vitreo no solo em que passeavamos impávidos.

Estamos onde estamos por escolha Dele, e pelos motivos que só a Graça é capaz de justificar.

Nossa queda eventual, como miserável seres que somos, só serve para lembrar que, embora raça eleita, escolhidos para andar em sua maravilhosa Luz, ainda somos homens, e mesmo quando somos incapazes de admitir nossa imbecilidade, Ele que tudo sabe e vê, não nos abandona por isso.

Siga @cristaoconfuso pelo Twitter
Postar um comentário