segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Família Sagrada

            


Supo­nho que nin­guém mais duvide de que aquela famí­lia repre­sen­tada no comer­cial de mar­ga­rina, per­feita e harmô­nica, não se encon­tra na Bíblia. Muito ao con­trá­rio: os exem­plos de com­po­si­ção fami­liar que encon­tra­mos nas pági­nas das Sagra­das Escri­tu­ras não são nada idealizados.
Nem mesmo a cha­mada “Sagrada Famí­lia” (de nosso Senhor Jesus Cristo) se salva. Começa que Maria engra­vi­dou antes de se casar. Não muito depois de Jesus com­ple­tar 12 anos, pelo que se sabe, José morre. Desde então, a famí­lia sagrada pas­sou a se con­tiuir de uma viúva e seus órfãos.
Jesus tam­bém não se parece lá muito com o filho que­ri­di­nho, do tipo que toda mãe gos­ta­ria ter. Alguns epi­só­dios até nos fazem pen­sar que Jesus bem mere­ce­ria umas boas pal­ma­das. Certa oca­sião, numa festa de casa­mento, sua mãe lhe pede para aju­dar numa situ­a­ção cons­tran­ge­dora, por­que se aca­bara um dos prin­ci­pais ele­men­tos do car­dá­pio da festa. Jesus lhe dá uma res­posta atra­ves­sada: “Mulher, que tenho eu con­tigo?” (cf. Jo 2).
Dou­tra feita, vie­ram avi­sar Jesus de que sua mãe, seus irmãos e irmãs esta­vam à porta, e que­riam falar-lhe. Ele teria res­pon­dido que aque­les não eram seus ver­da­dei­ros fami­li­a­res: “Quem são minha mãe, irmão e irmã, senão aque­les que ouvem a Pala­vra de Deus e a pra­ti­cam” (cf. Mt 12.48 – 49, Mc 3.33 – 34 e Lc 8.20 – 21). Ainda insi­nua que aque­les à porta não ouvem nem pra­ti­cam a Pala­vra de Deus. Esse jeito de falar não é exa­ta­mente o que cha­ma­ría­mos de gentil.
A Bíblia não esconde esses con­fli­tos e ten­sões fami­li­a­res, tal­vez para nos con­for­tar e tran­qui­li­zar em rela­ção ao fato de que tam­pouco nos­sas famí­lias são perfeitas.
No entanto, há muito a apren­der­mos com a “Famí­lia Sagrada”. Por essa razão, gos­ta­ria de tomar como refe­rên­cia para nossa refle­xão o relato de Lucas 2.40 – 52:
Cres­cia o menino e se for­ta­le­cia, enchendo-se de sabe­do­ria; e a graça de Deus estava sobre ele. Ora, anu­al­mente iam seus pais a Jeru­sa­lém, para a Festa da Pás­coa. Quando ele atin­giu os doze anos, subi­ram a Jeru­sa­lém, segundo o cos­tume da festa. Ter­mi­na­dos os dias da festa, ao regres­sa­rem, per­ma­ne­ceu o menino Jesus em Jeru­sa­lém, sem que seus pais o sou­bes­sem. Pen­sando, porém, estar ele entre os com­pa­nhei­ros de via­gem, foram cami­nho de um dia e, então, pas­sa­ram a procurá-lo entre os paren­tes e os conhe­ci­dos; e, não o tendo encon­trado, vol­ta­ram a Jeru­sa­lém à sua pro­cura. Três dias depois, o acha­ram no tem­plo, assen­tado no meio dos dou­to­res, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admi­ra­vam da sua inte­li­gên­cia e das suas res­pos­tas. Logo que seus pais o viram, fica­ram mara­vi­lha­dos; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, afli­tos, esta­mos à tua pro­cura. Ele lhes res­pon­deu: Por que me pro­cu­rá­veis? Não sabíeis que me cum­pria estar na casa de meu Pai? Não com­pre­en­de­ram, porém, as pala­vras que lhes dis­sera. E des­ceu com eles para Nazaré; e era-lhes sub­misso. Sua mãe, porém, guar­dava todas estas coi­sas no cora­ção. E cres­cia Jesus em sabe­do­ria, esta­tura e graça, diante de Deus e dos homens.
Este epi­só­dio tem uma mol­dura lite­rá­ria: “Cres­cia o menino e se for­ta­le­cia, enchendo-se de sabe­do­ria; e a graça de Deus estava sobre ele” (v. 40) e “cres­cia Jesus em sabe­do­ria, esta­tura e graça, diante de Deus e dos homens” (v. 52).  O que nos per­mite infe­rir que esta é a mis­são da famí­lia: Pos­si­bi­li­tar o cres­ci­mento dos seus inte­gran­tes em sabe­do­ria, esta­tura e graça!
O texto bíblico em ques­tão nos ofe­rece ainda ótimas ins­tru­ções a res­peito de como a famí­lia chega a cum­prir essa missão.
A impor­tân­cia das sole­ni­da­des cíclicas
Nos ver­sos 41 e 42 lemos: “Anu­al­mente iam a Jeru­sa­lém, para a Festa da Pás­coa. Quando ele atin­giu os doze anos, subi­ram a Jeru­sa­lém, segundo o cos­tume dafesta” (vs. 41 – 42).
Des­ta­quei as pala­vras “anu­al­mente”, “festa” e “cos­tume”, para evi­den­ciar a impor­tân­cia das sole­ni­da­des cícli­cas na for­ma­ção das novas gera­ções. Come­mo­rar rei­te­ra­da­mente cer­tas datas e oca­siões, longe de serem con­si­de­ra­das tolas repe­ti­ções, ou algum tipo de paga­nismo, são, sim, fun­da­men­tais para a cons­tru­ção da nossa iden­ti­dade como indi­ví­duo e como povo. Acon­te­ci­men­tos como esses nos con­fe­rem o que cha­ma­mos “cultura”.
Enca­rar essas sole­ni­da­des como “festa” é outro dado sig­ni­fi­ca­tivo. Apren­der uma cul­tura não deve ser penoso ou desa­gra­dá­vel, mas oca­sião de deleite e pra­zer.  “Cos­tume” é outro ele­mento fun­da­men­tal: não há apren­di­zado sem rotina, repe­ti­ção, incul­ca­ção. É impor­tante obser­var que “cos­tume” nunca é mera repe­ti­ção. Toda vez que tor­na­mos a cele­brar (a Pás­coa, o Natal, o Pen­te­cos­tes…) nunca repe­ti­mos, sim­ples­mente, antes res­sig­ni­fi­ca­mos, pre­sen­ti­fi­ca­mos, atu­a­li­za­mos o sen­tido des­sas sole­ni­da­des. A cri­ança que cele­bra a Pás­coa aos 12 anos de idade terá uma com­pre­en­são dife­rente da que teve quando cele­brou a mesma festa aos 5, ou aos 8 anos, ou da que terá aos 50 ou 60.
(Note-se, tam­bém, a sig­ni­fi­ca­tiva con­tri­bui­ção das via­gens e des­lo­ca­men­tos na for­ma­ção de iden­ti­dade. É conhe­cendo pes­soas, topo­gra­fias, hábi­tos dife­ren­tes dos nos­sos que tere­mos melho­res con­di­ções de dimen­si­o­nar e sig­ni­fi­car o que nos é pró­prio. Não há iden­ti­dade sem alteridade!)
A impor­tân­cia da autonomia
O epi­só­dio dra­má­tico da “perda” do menino pelos pais não nos ensina somente que pre­ci­sa­mos ficar aten­tos aos nos­sos filhos para não perdê-los de vista em meio à multidão…
Dá-nos, mais que isso, uma grande lição sobre auto­no­mia, e revela de uma maneira sur­pre­en­dente o quanto nós, pais, ten­de­mos a subes­ti­mar nos­sas cri­an­ças. Os pais pen­sa­vam encontrar-se o menino entre os conhe­ci­dos. Nes­sas oca­siões, sem­pre se via­java em grupo, junto com paren­tes e vizi­nhos. Seria nor­mal espe­rar que esti­vesse entre seus ami­gui­nhos, pri­mos, irmãos… brin­cando… Quem have­ria de supor que ele esta­ria inte­res­sado em algo mais do que brincadeiras?
Não há cres­ci­mento sau­dá­vel sem a expe­ri­ên­cia da auto­no­mia. Cres­cer é um pro­cesso con­tí­nuo rumo à inde­pen­dên­cia. Para alguns pais isso traz angús­tia e sofri­mento. Mas aque­les que super­pro­te­gem seus filhos, que os sufo­cam com vigi­lân­cia exces­siva, os impe­dem de cres­cer sau­da­vel­mente e causam-lhe danos irreparáveis.
 A impor­tân­cia do diá­logo com os especialistas
As cri­an­ças gos­tam, sim de brin­car, mas há algo que lhes é irre­sis­tí­vel: o desejo de aprender. Três dias depois, Maria e José final­mente encon­tra­ram Jesus “no tem­plo, assen­tado no meio dos dou­to­res, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admi­ra­vam da sua inte­li­gên­cia e das suas res­pos­tas” (vs. 46 – 470).
Jesus inte­ra­gia com os dou­to­res: “ouvia”, “inter­ro­gava” e “res­pon­dia”. Eu já havia escrito em outro texto que é uma pena que já não se façam mui­tos dou­to­res como esses do tempo de Jesus. Na mai­o­ria das vezes os espe­ci­a­lis­tas não têm paci­ên­cia pra con­ver­sar com as cri­an­ças. No máximo esta­riam dis­pos­tos a dis­cur­sar paraelas, por­que acham que não têm o que apren­der com elas. Aque­les dou­to­res fica­ram admi­ra­dís­si­mos com a inte­li­gên­cia e as res­pos­tas de Jesus como qual­quer um de nós fica­ria, se nos dedi­cás­se­mos a ouvir com aten­ção às nos­sas crianças.
Já dizia o jagunço Rio­baldo, per­so­na­gem de Gui­ma­rães Rosa, no Grande Ser­tão: Vere­das: “Mes­tre não é quem sem­pre ensina, mas quem, de repente, aprende.”
Por­que é assim que se aprende: no encon­tro de expe­ri­ên­cias entre pes­soas dife­ren­tes. Ambas as gera­ções, a dos jovens e a dos anti­gos, têm per­gun­tas impor­tan­tes a fazer umas às outras, e podem ofe­re­cer res­pos­tas igual­mente rele­van­tes. Mas isso só será pos­sí­vel se ambos se dis­pu­se­rem ao diá­logo: os mais velhos e os mais jovens, jun­tos, con­ver­sando… que acon­te­ci­mento admirável!
A impor­tân­cia do enfren­ta­mento honesto dos con­fli­tos entre as gerações
Quando os pais e o menino per­dido se acham, rola um clima tenso: “Logo que seus pais o viram, fica­ram mara­vi­lha­dos; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, afli­tos, esta­mos à tua pro­cura. Ele lhes res­pon­deu: Por que me pro­cu­rá­veis? Não sabíeis que me cum­pria estar na casa de meu Pai? Não com­pre­en­de­ram, porém, as pala­vras que lhes dis­sera. E des­ceu com eles para Nazaré; e era-lhes sub­misso” (vs. 48 – 51).
Há um misto de emo­ções, sen­ti­men­tos e rea­ções: admi­ra­ção, afli­ção, angús­tia e, cer­ta­mente, alí­vio pelo reen­con­tro, da parte dos pais; certa indi­fe­rença, incon­for­mismo e petu­lân­cia, da parte do filho.
Os pais “não com­pre­en­de­ram as pala­vras que Jesus lhes dis­sera” (v. 50). Essa não é a exce­ção, mas a regra no con­ví­vio entre as dife­ren­tes gera­ções: desen­ten­di­mento, con­fronto, con­tenda, con­tra­ri­e­dade, con­tro­vér­sia, desa­cordo, desa­juste, desa­mor, desar­mo­nia, desa­vença, des­con­certo, dife­rença, difi­cul­dade, dis­cor­dân­cia, dis­cór­dia, dis­cre­pân­cia, dis­cus­são, dis­puta, dis­sen­são, dis­sen­ti­mento, dis­si­dên­cia, dis­sin­to­nia, diver­gên­cia, hos­ti­li­dade, ina­de­qua­ção, incom­pa­ti­bi­li­dade, incon­for­mi­dade, ini­mi­zade, lití­gio, luta, mal-entendido, mal­que­rença, opo­si­ção… e assim por diante.
Se assim foi entre Jesus e seus pais, por que não seria tam­bém conosco? Ajuda, no entanto, saber que é assim, e que temos que lidar com isso da melhor forma. No epi­só­dio com Jesus, ambos, os pais e o menino, pude­ram expressar-se fran­ca­mente sobre seus sen­ti­men­tos. Os pais falam da sua angús­tia, e o filho explica a sua pers­pec­tiva das coisas.
É impor­tante notar, no entanto, que, na sequên­cia, o menino se sub­mete à auto­ri­dade dos pais e volta para Nazaré com eles. Os con­fli­tos e os desen­ten­di­men­tos são ine­vi­tá­veis, mas o con­ví­vio fami­liar tem a pri­ma­zia. Há oca­siões em que aos filhos se dá liber­dade e auto­no­mia, mas há outras em que não resta alter­na­tiva a não ser a da “sub­mis­são”. Não há como dei­xar a cri­té­rio da cri­ança se ela quer ou não tomar vaci­nas, usar o cinto de segu­rança, ou coi­sas do gênero. Algu­mas des­sas deci­sões são ine­go­ciá­veis, e sábios e feli­zes aque­les que con­se­guem dis­tin­guir essas das transigíveis.
Con­cluindo…
A mãe de Jesus, “porém, guar­dava todas estas coi­sas no cora­ção” (v. 51).  Que bonito cos­tume têm os anti­gos de guar­dar no cora­ção as memó­rias sig­ni­fi­ca­ti­vas de seus encon­tros e desen­con­tros com as novas gera­ções. Quanto apren­di­zado, quanto cres­ci­mento, quanto ama­du­re­ci­mento para ambos!
Quando as novas gera­ções têm o pri­vi­lé­gio de con­vi­ver com pais, como José e Maria foram para Jesus, e com Dou­to­res, como aque­les que lhe dis­pen­sa­ram tempo e aten­ção qua­li­ta­ti­vos, o resul­tado é maravilhoso:
“E cres­cia Jesus em sabe­do­ria, esta­tura e graça, diante de Deus e dos homens” (v. 52).
Refor­mu­le­mos a ordem dos fato­res para fins didá­ti­cos. Pri­meiro, cres­ci­mento em esta­tura é o resul­tado do cui­dado com o corpo, com a saúde, com a ali­men­ta­ção, a higi­ene… que­si­tos básico para via­bi­li­zar todos os demais tipos de cres­ci­mento. Pode­mos falar, então, do cres­ci­mento em sabe­do­ria, que é o resul­tado do cui­dado inte­lec­tual e espi­ri­tual, que faz com que as infor­ma­ções se trans­for­mem em conhe­ci­mento, e o conhe­ci­mento em ati­tu­des dig­nas e hon­ra­das. Final­mente, che­ga­mos ao cres­ci­mento em graça, que é o mais sublime de todos, por­que é a expres­são de que quando cres­ce­mos, não cres­ce­mos somente para nós mes­mos, mas cres­ce­mos para “Deus” e para os “homens”.
Em outras pala­vras, é para isso que cres­ce­mos, para estar­mos digna e hon­ra­da­mente diante de Deus e do nosso seme­lhante, pre­pa­ra­dos para amá-los e ser­mos ama­dos por ambos.
Luiz Car­los Ramos
(Para a Revista Gai­vota Meto­dista, em maio de 2012)
Li e gostei no http://www.luizcarlosramos.net  
Postar um comentário