domingo, 25 de março de 2012

Reflexão Dominical da Comunidade

 O ENGANO DA TEOLOGIA DA RESTITUIÇAO!


"Restitui! Eu quero de volta o que é meu!" 






Esta frase extraída de uma canção "evangélica" me faz lembrar a petulante
atitude do Filho Pródigo quando disse: "Pai, dá-me a parte dos bens que
me cabe". E quão diferente não foi a atitude deste mesmo filho, que,
anos mais tarde, arrependido, apresenta-se diante do pai com o coração
quebrantado, humilde, e nada reivindica, pois, agora, está consciente
de não possuir direito algum diante do pai. Observe que ele nem mesmo
se sente digno de ser tratado como filho. Ele confessa o seu pecado e
passa a contar apenas com a misericórdia do pai.


Nem o Filho Pródigo e nem Jó em seus momentos de angústia cataram ou clamaram algo parecido com: "restitui, eu quero de volta o que é meu" Quando Jó
perdeu tudo, ele exclamou: "O Senhor deu, o Senhor levou, bendito seja
o nome do Senhor". Jó, mesmo sendo considerado uma pessoa justa, sabia
que tudo na vida era uma dádiva e que nada era dele por direito. Não
considerava nada como sendo realmente seu, pois sabia que tudo
pertencia ao Senhor.


Pensando bem, se o salário do pecado é a
morte, então, o que os pecadores teriam de fato por "direito" seria a
morte. Por isto, o profeta Jeremias diz que as misericórdias do Senhor
são o motivo de não termos sido consumidos (Lm 3:22). E diz mais ainda
em 3.39: "Do que se queixa o ser vivente? Queixe-se cada um dos seus
próprios pecados".


Clamar a Deus: "Restitui! Eu quero de volta o
que é meu!" soa tão arrogante quanto a oração do fariseu que se sentia
cheio de direitos diante de Deus. Jesus diz que tal prece foi ignorada
por Deus, enquanto a humilde oração de arrependimento do publicano
pecador achou graça aos olhos de Deus (Lc 18.14). Pois sabemos que
"Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tg 4:6). É
neste sentido que as crianças nos servem como modelo, não por sua
inocência, mas por sua incompetência. As crianças estão de mãos vazias,
não têm passado e não possuem uma folha de serviços prestados para
apresentar como base de suas pretensões e reivindicações de direitos.
Elas são pobres de espírito. Como crianças se tornaram o Profeta Isaías
que, consciente de não poder subsistir diante de Deus na base de seus
próprios méritos, clamou por misericórdia, dizendo: "Aí de Mim..." (Is
6); João Batista que disse não ser digno de desatar as sandálias de
Cristo (Jo 1.27), o centurião, que disse não ser digno de que Cristo
entrasse em sua casa (Mt 8.8), o publicano que quando orava, "não
ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo:
Ó Deus, sê propício a mim, pecador!" (Lc 18:13); o Filho Pródigo, que
disse não ser digno de ser chamado de filho (Lc 15.19), o cego de
Jericó, que mendigava e clamava por misericórdia (Lc 18.35s); a mulher
sírio fenícia, que não se sentia digna de comer à mesa dos filhos, mas
que se satisfaria com as migalhas que caíssem da mesa do Senhor (Mt
7.26s); Pedro, que prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor,
retira-te de mim, porque sou pecador (Lucas 5:8); Paulo que disse ser o
maior dos pecadores e indigno de ser chamado Apóstolo (1Co 15.9); e
tantos quantos reconhecerem sua indignidade, sua incompetência, sua
inadequação, e, pobres de espírito e desprovidos de qualquer pretensão
e noção de direito, se apresentaram de mãos vazias diante de Deus
esperando por sua misericórdia e graça.


Jesus disse aos líderes religiosos dos judeus que estavam confiantes em sua noção de direito decorrente do fato de serem descendentes de Abraão: "Produzi, pois,
frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós
mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras
Deus pode suscitar filhos a Abraão" (Lc 3:8). Não devemos, portanto,
nos apresentar diante de Deus reivindicando o que quer que seja na base
de um pretenso direito. Tal idéia é um atentado ao Evangelho da Graça.
Graça é dádiva imerecida. Portanto, não temos direito a nada, pois tudo
o que recebemos das mãos de Deus é resultado de sua amorosa graça.
Aprendamos, portanto, a orar com o Profeta Daniel: "não lançamos as
nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em
tuas muitas misericórdias" (Dn 9:18).


Vemos nesta canção também um outro vento novo de doutrina, que está
sendo denominada, teologia da restituição. Baseado em Joel 2.25, está
sendo ensinado que tudo o que nos foi roubado pelo diabo, estará sendo
restituído por Deus: "Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos
pelo gafanhoto migrador, pelo destruidor e pelo cortador, o meu grande
exército que enviei contra vós outros." Mas o próprio versículo deixa
claro que este exército de gafanhotos não foi enviado pelo Diabo, mas,
sim, por Deus, com intuito de disciplinar, corrigir e ensinar seu povo.
Outro problema também é atribuirmos ao diabo os nossos infortúnios e
nos esquivarmos de nossa responsabilidade pessoal. É interessante notar
que, diante deste quadro, o profeta Joel não conclama o povo a um
clamor de restituição, mas, sim, a um clamor de arrependimento
(2.12-15). Corações quebrantados, contritos e humildes nunca são
rejeitados por Deus: "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito
quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus"
(Sl 51:17; Ver também: Is 57.15 e 2 Cr 7.14).


Quando Deus promete restituir, isto se deve a sua misericórdia e graça e não a
qualquer espécie de obrigação, pois Deus nada deve ao ser humano, mas
somos nós quem lhe devemos tudo. Pois "quem primeiro deu a ele para que
lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele
são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!" (Rm
11.35,36).



O texto é do Bispo José Ildo Swartele de Mello,da Igreja Metodista

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