terça-feira, 24 de abril de 2012

Gente Tarja Preta




A “novela” de Jó, descrita nas Escrituras, é maravilhosa e assustadora. De forma inusitada, ela vai de um extremo ao outro da existência. Em um “frame”, Jó é homem reto, temente a Deus, inculpe e bem sucedido. No outro, todavia, sua vida se catastrofisa: seus filhos morrem, seus bens são destruídos, sua mulher o deixa e seus amigos se revelam tiranos.

Tanta desgraça assim não há quem possa suportar, nem mesmo Jó!  Como era de se esperar, sua alma somatiza suas perdas e danos e derrama sobre seu corpo, quais larvas de um vulcão, toda a dor e incompreensão que lhe afligem em forma de úlceras e tumores que vão da planta dos pés até a cabeça. Como bem citou Shakespeare: “chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras”.

E foi assim que Jó, no auge de seu desespero, desencaixado do seu “centro gravitacional”, desencontrado de sua alma, vasculhou nos escombros de seu íntimo uma nesga de racionalidade e suspirou: “... aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece”. Jó 3:25. De fato, sem qualquer explicação lógica ou motivo aparente – como não raro acontece debaixo do sol – Jó havia se transformado num para-raios às avessas, capaz de atrair para si toda negatividade e desgraça que pairasse sobre nuvens escuras em dias sombrios.

Olhado desta perspectiva, Jó é arquetípico, uma representação da materialização da desgraça, do desespero, da angústia, do medo, da negatividade humana e de tudo que se instala no ser para esculpir o mal. Resta a Jó apenas, como humano que é, entregar-se ao pessimismo, sucumbir à depressão, abraçar a ansiedade, cercar-se de racionalizações na busca insana e inumana de explicações, de culpados, de justiça!      
   
E é aqui que eu entro, qual um “Quixote” andante, para descrever-te uma coisa que a vida tem me ensinado: tem muito “João” por aí que deveria ser apenas João, mas, na verdade, não passa de um Jó disfarçado de “João”. Gente assim faz mal; é capaz de fazer o sol se por, a brisa cessar, o riso parar, a paz sumir. É gente densa, amarga, cinzenta, que tornou-se qual “buraco negro”, atraindo para si tudo de ruim que gravita ao redor, pois nem mesmo a luz pode deles escapar. Gente assim é “tarja preta”, deve ser evitada, pois os danos que pode causar vão para bem além do que se possa imaginar...   

Tenho visto, de forma recorrente, que tais pessoas são capazes de destruir tudo o que encontram pelo caminho, sobretudo pessoas, e fazem isso roubando-lhes o sono, os sonhos, o prazer, a alegria de ser, de ir, de vir e de viver. Triste, entretanto, é saber que, na maioria dos casos, isso não lhes dá prazer, antes, pelo contrário, serve apenas para soterrá-las em si mesmas ainda mais.

Quando a alma chega neste estágio, os “apetites” normais da vida acabam lhe fugindo. Em seu lugar, entretanto, surge uma “fome” insaciável de tristeza, de pessimismo, de melancolia, pois a pessoa acaba se viciando em “devorar” aquilo que lhe mata, traga a miséria com satisfação e bebe do cálice da amargura com prazer.

Se há cura para isso? Há sim, mas, para tal, “João” terá de percorrer o mesmo caminho existencial que percorreu o seu amigo Jó. E qual é esse caminho? Bem, como ele mesmo afirmou: “meus ouvidos já tinham ouvido a Teu respeito, mas agora os meus olhos Te viram. Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza". Jó 42:5-6”.   

O caminho que refaz o ser para a vida, que ressignifica os dias e que dá cor a flor e sabor ao pão é a experimentação da Graça como verdade capaz de curar a alma de todos os seus males, pois só assim é possível saber que, mesmo em meio à perda e a dor, há sempre um significado maior para o que nos acomete, uma vez que absolutamente tudo conspira para o bem dos que amam a Deus!

É por isso que vos afirmo que toda cura passa, irremediavelmente, pela experimentação da Verdade como caminho caminhado, e não como teoria, doutrina ou ensinamento! Os olhos precisam ver a Graça, pois ouvir apenas não basta, e isto a partir de uma nova consciência. Quem assim o fizer, será capaz de aprender a degustar, no banquete da vida, tudo o que lhe for servido como dádiva do amor, pois só desta forma é possível brotar a pacificação que produz paz e bem ao ser.

Carlos Moreira


 
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