quinta-feira, 19 de abril de 2012

Chamados por Deus: a ilusão dos que esperam glórias






Por Cristiano Santana

"Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo".
Quando alguém, inspirado pelo Espírito Santo, se aproxima de um cristão e diz "Deus tem um chamado na sua vida", o que recebe a mensagem se estremece por dentro e por fora, indagando-se ao mesmo tempo sobre a natureza do comissionamento que lhe foi atribuído. O fato é que, em certos contextos, o chamado de Deus é visto como uma vocação revestida de glamour, capaz de elevar aquele que o recebe a um nível de autoridade espiritual e dignidade superior ao de outros mortais. Ser chamado por Deus significa, nessa perspectiva, receber atribuições da mais alta importância, delegadas a pouquíssimas pessoas e que trazem consigo diversos privilégios. Um pouco de reflexão mostrará que esse conceito de chamado é mais um dos grandes equívocos da cristandade moderna.

Em várias de suas epístolas, principalmente na saudação inicial, Paulo procura infatizar a origem divina de sua vocação apostólica (1Cor 1:1; Gl 1.1,15; 1Tm 1.11). Qual é a razão por trás dessa postura sistemática? A resposta é que muitos punham em dúvida a legitimidade do seu apostolado. A principal contestação é que Paulo não tinha sido testemunha dos fatos que envolveram o ministério terreno de Jesus Cristo, desde o batismo de João até a sua morte e ressureição. Ademais, os seus detratores se apoiavam em várias de suas supostas deficiências, como a oratória medíocre e a "presença fraca e desprezível", por exemplo.

Sobressai aqui uma primeira verdade sobre o chamado de Deus. Não há garantia alguma de aquele que é vocacionado gozará de uma aceitação e reconhecimento plenos. Paulo sofria com isso, assim como outros cristãos na atualidade. O problema é que a coletividade costuma elaborar um estereótipo, o paradigma que servirá para dizer se alguém tem os atributos necessários para assumir certa posição dentro de uma organização. Criaram um modelo de apóstolo na época de Paulo. Também o evangelicalismo moderno tem criado outro de pregador, cantor, pastor, etc., e se alguém não se encaixa no padrão é descartado pelo sistema.

Quais são as "qualidades" que hoje definem alguém como portador do chamado divino? Transigência com o pecado, vida financeiramente próspera, forte marketing pessoal, pregação espetaculosa, boa aparência, excelente oratória, subserviente, bajulador, etc. Não quero generalizar dizendo que é assim em toda igreja, mas arrisco-me em dizer que os requisitos que acabo de listar já são norma em muitas. Como consequência, os não-chamados ocupam posições estratégicas na igreja unicamente porque se adaptaram a um padrão carnal e mundano de virtudes, enquanto que os verdadeiramente chamados são deixados à margem, principalmente por que representam certa ameaça ao "status quo". Foram muitas as dificuldades que Paulo encontrou para ser aceito como apóstolo na igreja primitiva. A mesma situação é enfrentada atualmente por aqueles que tem  algum tipo de vocação.  

Outro fato curioso é sobre a natureza do chamado de Paulo. Ele não foi vocacionado para ser chefe dos apóstolos, embaixador de estado, "pop star" do mercado evangélico ou coisa parecida. As palavras de Cristo que resumem muito bem a finalidade do comissionamento de Paulo são essas: "E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome" (Atos 9:15). O apóstolo dos gentios foi chamado para anunciar a mensagem de salvação, mas para tanto teve de receber no próprio corpo as marcas de Cristo, a saber, pedradas, chicotadas e diversos outros danos que lhe afligiam física e psicologicamente.

O chamado de Deus quase sempre é um chamado para o sofrimento. A história da igreja atesta essa verdade, haja vista os milhares de mártires que morreram em nome da Cristo queimados, enforcados, dilacerados por feras ou mutilados em terríveis máquinas de tortura. Além disso podemos ser chamados para desempenhar tarefas que, apesar de serem muito simples, não deixam de ter importância para Deus. Há aqueles que recebem o chamado para cuidar dos doentes, outros para aconselhar os inexperientes. Uns para visitar os presos, outros para consolar os aflitos. Nesse sentido, ser chamado não implica em ser designado para realizar coisas grandiosas diante de Deus e dos homens. O fato é que há milhões de cristãos que foram chamados por Deus para desempenhar algum ministério específico que agora estão no mais completo anonimato, longe dos holofotes da fama, mas que receberão galardões incalculáveis.

Apresentados os aspectos mais importantes do chamado divino, finalizo advertindo que ninguém se iluda quando ouvir essa frase: "Deus tem um chamado em sua vida". Conforme expus acima, esse comissionamento não trás consigo promessas de glórias terrenas, mas apenas de eternas. 

Importante também é que cada um reconheça o chamado de Deus em sua vida, vocação esta que não depende da autenticação humana, e se esforçe em cumprir aquilo que lhe foi determinado pelo Senhor, seja tarefa pequena ou grande, pois o nosso galardão está nos céus.
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